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O amor bate na porta


" ...O amor bate na porta
O amor bate na aorta, 
Fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico, 
O amor ronca na horta
Entre pés de laranjeira
Entre uvas meio verdes
E desejos já maduros..."

Feliz Ano Novo!!

Cortar o tempo

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, 
A que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial!
Industrializou a esperança, 
fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
 e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."

A todos que aportam por aqui, possam fazer de 2012 o melhor ano de suas vidas!

Façam o melhor, façam-se felizes!!


Sugar e ser sugado pelo amor



"Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar e ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua."

Quarto em desordem




"Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama."



{imagem: Stafan Beutler}

No corpo feminino


No corpo feminino, esse retiro
- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
Pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
Em unhas protestantes, a respiro
A brisa dos planetas, no seu giro
Lento, violento... Então, se ponho tiro

A mão em concha - a mão, sábio papiro,
Iluminando o gozo, qual lampiro.
Ou se, dessedentado, já me estiro,

Me penso, me restauro, me confiro,
O sentimento da morte ei que adquiro:
De rola, a bunda torna-se vampiro.
{imagem: Igor Amelkovich}

A puta

"Quero conhecer a puta.
A puta da cidade.
A única.
A fornecedora.
Na rua de Baixo
Onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardendo
E labaredas torram a língua
De quem disser:
Eu quero
A puta
Quero a puta quero a puta.
Ela arreganha dentes largos
De longe.
Na mata do cabelo
Se abre toda, chupante
Boca de mina amanteigada
Quente.
A puta quente.
É preciso crescer esta noite inteira sem parar
De crescer e querer
A puta que não sabe
O gosto do desejo do menino
O gosto menino
Que nem o menino
Sabe, e quer saber, querendo a puta."










Amor e seu tempo


"Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde."
{imagem: autoria desconhecida}

Quadrilha

"João amava Teresa
que amava Raimundo
que amava Maria
que amava Joaquim
que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos,
Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se
e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história."
{imagem: autoria desconhecida}

Cortar o tempo

" Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número
e outra vontade de acreditar que daqui por diante
vai ser diferente."
{imagem: autoria desconhecida}

O Mundo e grande

"O mundo é grande a cabe
Nesta janela sobre o mar.
O mar é grande a cabe
Na cama e no colchão de amar.
O amor e grande e cabe
No breve espaço de beijar."


{imagem: Salvador Dali - Moça na janela}

Viver não dói.

“Definitivo, como tudo que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
Mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer
Por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou
Em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia
Por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado
E passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas,
Por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido
Ao lado do nosso amor e não conhecemos,
Por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não
Tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que
Gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e
Paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos
De ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo,
Para nadas, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco,
Mas por todos os momentos em que poderíamos estar
Confidenciando a ela nossas mais profundas angústias
Se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está
Sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca
chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício
Da vida está no amor que não damos, nas forças que não
Usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que,
Esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.”

{imagem: autoria desconhecida}