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Que fez a vida de mim?

"- O que fiz da minha vida?
Pergunto a acercar-se o fim
E isto me ocorre em seguinda:
-Que fez a vida de mim?
Pude, então, reconhecer
Nos seus caprichos e ardis
Que nunca fui qem quis ser,
Fui somente o que ela quis!
Duma forma persistente
Tomou-me e me comandou,
Poderosa e prepotente,
De mim usou e abusou:
Deu-me tratos de polé
Tantas vezes que nem sei
Se deu culpas serei ré
E onde, quando e como errei!
Para o rumo que pretendi
Negou-me o seu forte impulso
E a tudo ao que ascendi
Tive de o fazer a pulso.
Recusou-me um terno abrigo,
Desfez projectos, ideais,
Persuadindo ser castigo
Por ter pedido demais.
Mais madrasta que madrinha
Demonstrou-me tal desdém
Que me pôs sò e velhinha
No deserto de ninguém.
Na sua mão sempre arteira
Que ambições fez em fiapos,
Eu fui boneca de trapos!
E embora o que é doce e bom
Raro o venha oferecer
E anto faça sofrer...
A vida é tão grande dom
Que vale a pena viver!"

{imagem: autoria desconhecida}

Passos


"Passos que damos neste caminhar
Imposto a cada ser por sua sina:
Dos passos vacilantes de menina
Aos dos trôpegos velhos, a arrastar.

Passos correndo pra ir abraçar
A ventura a acenar, além, à esquina.
Passos lentos de quem não se amofina
Na espera do que a sorte lhe vai dar.

Passos perdidos entre a multidão...
Firmes ou bruscos, em indecisão...
Temerosos nos declives, nas encostas...

Mas há um momento em cada vida
No qual se é, em marcha dolorida,
Senhor dos Passos, com uma Cruz às costas!"
{imagem: Alexandre Guerra}

Ser livre


"Eu penso que sou livre e mil grilhões
Me subjugam e vergam a vontade.
Nem senhora de mim sou, na verdade,
Tão prisioneira estou das emoções.

Quisera usar de plena liberdade,
Desprender-me de mitos e ambições,
De ansiedades, dilemas e ilusões,
Da amargura, do medo e da saudade.

Serenamente o Tempo ver passar,
Sem o ontem, o amanhã me perturbar,
Sem o presente me afectar também.

Mas quando assim for livre inteiramente
Como asa no azul, brisa corrente,
Não sou eu, nem sou nada, nem ninguém!"
{imagem: Floriana Barbu}

O falar e o calar


"Palavra: Mercê dileta
Só dos homens atributo!
Silêncio: Mansao secreta
Onde o pensar se faz fruto!
O Silencio e a Palavra
Siatuam-se em igual plano
Pois cada um em sua lavra
Dispõe de poder soberano.
Palavra pode ser fogo,
Silêncio pode ser gelo,
Podem impor-se ou ser rogo,
Ser ventura ou pesadelo.
Sempre a palavra faz gala
Em expandir eloquência
E quando o silêncio cala,
Dá ao ouro a preferência!
No silêncio, o sonho impera...
Na palavra, a ação cresce...
No silêncio, a alma gera...
Na palavra, o ser floresce!
Ambos são nascente e foz
Onde a existência se espalma,
Na Palavra, o corpo é voz,
No Silêncio, voz é alma!"
{imagem: Rarindra Prakarsa}