Papéis



"Há coisas que me emocionam, sem nenhuma razão clara: os grandes salões com cheiro de casa fechada. Os jarros de porcelana que não foram comprados agora, que ninguém sabe quem comprou, e os empregados limpam, displicentes, com um pano velho, sem saberem que valor têm. Limpam como desde o princípio do mundo, sem ninguém mandar, sem ninguém ver... Os jarros que os criados mesmo assim amam, por hábito, e não desejam quebrar.

Também a luz das clarabóias. É uma luz que me eletriza, que me deixa completamente lírica, arrebatada para um outro mundo. Como se eu entrasse num ovo mágico, branco e fosco, esmerilado, e me tornasse invisível, e pudesse pensar.

E os lugares com eco, meu amor de menina, entre as cigarras.

E as casas pintadas de azul: os chalés rendados. As varandas.

Os dias de muita chuva, com trovões abafados, e ruas desertas.

Talvez Deus se resolva a destruir o mundo.

O mar tempestuoso.

A solidão, com os cães ladrando, longe, vendo a Morte.

Cheiro de terra molhada, com as cores das flores e a memória dos ossos.

Casas coloniais, baixas, todas fechadas. Ah! assombrações."
{imagem: Nataliya Ignatenko}

Aconchego

Essa imagem me trouxe boas lembranças,
Quase um aconchego...
Me vejo ainda criança,
E saía a olhar os passarinhos,
Ainda ecoam os sorrisos na memória,
Ainda sinto o cheiro de terra molhada
e a cantoria harmônica no ar...


{imagem: Yiannis Dimkopoulos}

Pequena folha


"Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo."

{imagem: Valery Velikov}

Finda-se o ócio

Os dias de ócio estão terminando...
Aproveito as últimas horas para curtir-me,
Assim, vestindo quase nada,
Permitindo-me o gozo antes da nova jornada!


{imagem: Gabriele Carpinelli}

Árvore verde





"Árvore verde,
Meu pensamento
Em ti se perde.
Ver é dormir
Neste momento.

Que bom não ser
'Stando acordado !
Também em mim enverdecer
Em folhas dado !

Tremulamente
Sentir no corpo
Brisa na alma !
Não ser quem sente,
Mas tem a calma.

Eu tinha um sonho
Que me encantava.
Se a manhã vinha,
Como eu a odiava !

Volvia a noite,
E o sonho a mim.
Era o meu lar,
Minha alma afim.

Depois perdi-o.
Lembro ? Quem dera !
Se eu nunca soube
O que ele era."
{imagem: Bogdan Ionescu}

Doces sabores


Os meus entre tantos outros...
Observava a felicidade nos olhos alheios.
O sorriso mais próximo, que vi primeiro
Iluminou-me!

Todos a volta,
Todos em mim,
Todos distantes,
Todos afins!

Gratificante o momento de partilha,
Doce os sabores que me vinham...
Mais doce ainda foi o abraço, o beijo, o carinho!
{imagem: Maurizio Moro}